http://www1.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u7569.shtml
31/10/2002 - 10h34
Equipe encontra relíquia estelar mais antiga na borda da galáxia
SALVADOR NOGUEIRA
da Folha de S.Paulo
Uma estrela nanica e discreta na borda da Via Láctea reacendeu a esperança
dos astrônomos de encontrar exemplares da primeira ninhada estelar nascida
no Universo. O astro é o primo mais próximo já descoberto das estrelas
pioneiras do cosmos.
A descoberta foi feita por cientistas da Alemanha, da Austrália, dos EUA e
do Brasil, com o auxílio de um telescópio no Chile, e já derruba de cara a
hipótese de que as primeiras estrelas do Universo só poderiam ter sido
gigantescas e, portanto, de vida muito curta. Isso reforça a possibilidade
de que os cientistas voltem a encontrar astros desse tipo no futuro, talvez
chegando até a ver estrelas da tão procurada primeira geração.
Em essência, uma estrela não passa de uma bola feita de hidrogênio acumulado
a partir de uma nuvem de gás primordial. Quando sua gravidade se torna mais
intensa, o processo de compactação do gás faz com que ela inicie fusão
nuclear em seu interior, grudando átomos de hidrogênio para formar hélio.
Quando uma estrela é grande o suficiente e o hidrogênio que alimenta a fusão
acaba, ela começa a produzir elementos cada vez mais pesados e termina seu
ciclo numa explosão, que espalha esses átomos pelo espaço.
Os átomos pesados vão parar em outras nuvens gasosas e acabam incorporados a
estrelas em vias de nascer. Por essa razão, quanto mais nova é uma estrela,
mais elementos pesados devem estar em sua composição. Em contrapartida, a
primeira geração de estrelas deveria ser totalmente formada por hidrogênio e
hélio, sem elementos pesados.
A estrela recém-estudada pelo grupo coordenado por Norbert Christlieb, do
Observatório de Hamburgo, na Alemanha, tem cerca de 12 bilhões de anos, 80%
da massa do Sol e concentração de ferro (um elemento pesado) equivalente a
dois centésimos de milésimo da solar. A estrela menos "enriquecida" até
então detectada tinha 20 vezes mais ferro.
A descoberta está relatada hoje na revista "Nature" (www.nature.com) e vai
abrir portas para um melhor entendimento da história da Via Láctea e do
Universo. "Esperamos encontrar outras estrelas como essa", diz Silvia
Cristina Fernandes Rossi, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências
Atmosféricas da USP, uma das autoras. "Em novembro mesmo estou indo ao Chile
com uma lista de objetos para observação."
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